Energia interna
A energia de um sistema termodinâmico, composto por um grande número de partículas tais como íons, moléculas, átomos ou mesmo fótons, pode ser decomposta em três partes:
- As energias cinéticas atreladas ao movimento de todo o sistema e ao movimento das partículas que o constituem.
- As energias potenciais do sistema devido às interações com o ambiente externo expressas via campos gravitacionais, elétricos ou magnéticos, e devido às interações entre as moléculas, íons, átomos, elétrons, núcleos, núcleons etc... que constituem esse sistema.
- As energias de campos radiantes confinados pelas fronteiras do sistema, tipicamente as energias de fótons térmicos confinados.

Existem, portanto, dois níveis de escala para a energia total do sistema:
- Nível macroscópico, sensível aos sentidos, ou seja, definido em escala humana, abarcando a energia cinética macroscópica <math>E_\text{c,macro}~</math> do sistema quando em movimento em relação a um referencial inercial aparte desse, e as energias potenciais <math>E_\text{p,macro}~</math> do sistema quando imerso em campos gravitacional, elétrico ou magnético macroscopicamente estabelecidos por fontes externas.
- Nível microscópico, inacessível aos nossos sentidos, abarcando a soma das energias cinéticas <math>E_\text{c,micro}~</math> das partículas constituintes - atrelada ao movimento térmico dessas -; as energias potenciais <math>E_\text{p,micro}~</math> de todas as interações entre tais partículas microscópicas, com destaque para a elétrica no caso das energias nas ligações químicas (energia química) e para a nuclear no caso das energias de interação entre núcleons (energia nuclear); e a soma das energias <math>E_\text{r,micro}~</math> das partículas de campo confinadas.
A energia interna <math>U</math> de um sistema termodinâmico (semi)clássico - onde massa e energia são tratadas como grandezas não relacionadas - corresponde à soma das suas energias microscópicas.
<math>U = \sum E_\text{c,micro} + \sum E_\text{p,micro} + \sum E_\text{r,micro}</math>
Em sistemas didáticos ou modeláveis de forma simples - entendidos como compostos apenas por partículas com massa e absolutamente neutras - não há energia radiante confinada ou essa é em prática ignorável, e a energia interna escreve-se usualmente:
<math>U = \sum E_\text{c,micro} + \sum E_\text{p,micro}</math>
A energia interna tem por parcelas apenas as energias atreladas diretamente aos constituintes do sistema e por tal encerradas pela fronteira que define o sistema, nela não figurando as energias atreladas às interações entre o sistema e sua vizinhança, portanto.
A 1º Lei da termodinâmica estabelece que a variação da energia interna (<math> \Delta U </math>) de um sistema corresponde à energia térmica (Q) recebida pelo sistema na forma de calor durante o processo menos a correspondente energia cedida pelo sistema à sua vizinhança na forma de trabalho (W).
<math> \Delta U = Q - W </math>
A unidade do Sistema Internacional de Unidades utilizada para a energia interna é o joule (J).
Definição

Em Termodinâmica a energia interna <math> U</math> de um sistema corresponde à soma de todas as energias cinéticas - o que traduz-se assumido o referencial adequado à definição [1] por energia térmica - e das energias potenciais - com destaque para a energia potencial elétrica - associadas às partículas que compõem um dado sistema termodinâmico. A energia atrelada à radiação térmica confinada também integra a energia interna, e sua contribuição inclui-se usualmente na parcela de energia térmica. O tratamento rigoroso da radiação térmica usualmente requer, contudo, conhecimentos mínimos oriundos da física quântica. Em caso de sistemas fora do âmbito da física clássica deve-se incluir também como integrante da energia interna, em acordo com o princípio da equivalência massa energia, uma parcela de energia associada à massa deste sistema (E=mC²). Para sistemas clássicos esta parcela, e em vários casos também a anterior, podem entretanto ser perfeitamente suprimidas uma vez que, nestes casos, a lei da conservação de energia em seu sentido mais abrangente degenera-se em duas leis distintas, as leis clássicas da conservação da energia e a da conservação da massa; e em sistemas constituídos por partículas fundamentais pressupostas perfeitamente neutras não espera-se a existência de radiação térmica (essa fazendo-se contudo presente, nos casos reais assim modelados, em escala desprezível).
Na maioria das reações químicas espontâneas exoenergéticas a energia inicialmente armazenada na forma de energia potencial elétrica na distribuição eletrônica dos elétrons na estrutura dos reagentes é convertida em energia térmica armazenada nas partículas dos produtos, o que mantém a energia interna do sistema formado pelos reagentes e/ou produtos constante em obediência à lei da conservação da energia mas leva a um considerável aumento da a temperatura do sistema como um todo. Este sistema aquecido é então utilizado como a fonte quente em uma máquina térmica que tenha por função transformar parte da energia térmica da fonte quente em trabalho. Durante o funcionamento da máquina térmica as energias térmica e interna da fonte quente diminuem de forma a suprirem o trabalho realizado e a energia térmica que acaba obrigatoriamente (em acordo com a segunda lei da termodinâmica) renegada à fonte fria. Como exemplo direto tem-se a combustão da gasolina nos automóveis.
Não é nada trivial medir-se a quantidade absoluta de energia interna de um sistema, e em verdade isto raramente é necessário. Para quase todos os fins práticos determinam-se não os valores absolutos da energia interna em si mas sim as variações que ocorrem nesta energia: quando o sistema toma parte em um processo termodinâmico pode-se quase sempre determinar, com razoável facilidade experimental, a quantidade de energia que o sistema cede ou recebe quer na forma de calor quer na forma de trabalho; uma simples aplicação da Primeira Lei da Termodinâmica fornece por resultado a variação na energia interna desejada.
Experimentalmente verifica-se que é a variação de energia interna de um sistema e não os valores absolutos desta que retém real significado experimental e prático.
A energia interna é uma função de estado de forma que sua variação depende apenas dos estados inicial e final, mostrando-se por tal independente dos processos que eventualmente levam o sistema do referido estado inicial ao referido estado final.
<math> \Delta U = U_f - U_i </math>
Há duas formas de se fazer a energia interna de um sistema fechado variar: via calor, e via trabalho. A 1º Lei da termodinâmica estabelece que a variação da energia interna (<math> \Delta U </math>) de um sistema corresponde à energia térmica (Q) recebida pelo sistema na forma de calor menos a energia cedida pelo sistema à sua vizinhança na forma de trabalho (W).
<math> \Delta U = Q - W </math>
A unidade do Sistema Internacional de Unidades utilizada para a energia interna é o joule (J).
Termodinâmica
Embora definida conforme apresentado em termos de seus constituintes microscópicos, a definição de energia interna deu-se em primeira mão através de medidas e observações atreladas a grandezas macroscopicamente estabelecidas, e na confiança atrelada a princípios físicos fundamentais como o da conservação da energia. Dos rigores atrelados à termodinâmica, derivou-se também que, quando expressa em função das grandezas entropia S, número de elementos N, e do volume V - para o caso de sistemas termodinâmicos mais simples - a energia interna <math> U = U_{(S,V,N)} </math> é, assim como o são as respectivas Transformadas de Legendre, a saber a Energia livre de Helmholtz <math> F = F_{(T,V,N)} </math>, a Entalpia <math> H = H_{(S,P,N)} </math> e a Energia livre de Gibbs <math> G = G_{(T,P,N)} </math>, uma equação fundamental para os sistemas termodinâmicos, sendo então possível, a partir desta e do formalismo matemático inerente à termodinâmica, obter-se qualquer informação física relevante a qual esta encontre-se vinculada.[2]

As transformadas de Legendre da energia interna <math> U = U_{(S,V,N)} </math> bem como ela própria são conhecidas como potenciais termodinâmicos.
Em termos matemáticos
É possível definir a quantidade de energia interna de um sistema através da função:
- <math> \mathbf {U = U_0 + \sum E_c + \sum E_p + \sum E_r} </math>
onde:
- <math> \mathbf U_0 = m_0 \cdot c^2 </math> corresponde ao equivalente em energia da massa de repouso e independe do estado termodinâmico;
- <math> \mathbf \sum E_c </math> é o somatório das energias cinéticas das partículas que constituem o sistema;
- <math> \mathbf \sum E_p </math> é o somatório das energias potenciais das partículas que constituem o sistema.
- <math> \mathbf \sum E_r </math> é o somatório das energias dos campos radiantes, tipicamente as energias de fótons térmicos, confinados no sistema.
O referencial para medida da energia interna é sempre assumido como estático em relação ao centro de massa do sistema em questão. Energias oriundas de interações entre alguma parte do sistema e quaisquer partes pertencentes à vizinhança do sistema não são incluídas no cômputo da energia interna do sistema.
Parcelas da energia interna
| Tipo | Contexto |
|---|---|
| Energia térmica | A energia cinética associada com mudanças de temperatura. |
| Energia química | A energia potencial, com destaque para a elétrica, associada com eletrosferas e reações químicas. |
| Energia nuclear | A energia potencial associada com os nucleôns e com reações nucleares. |
| Massa | Quando pertinente, massa é tratada como se energia o fosse (<math> E=mc^2 </math>). |
| Energia radiante | A energia dos fótons confinados em um sistema termodinâmico integra sua energia térmica, e interna. |
- A energia térmica é parte energia interna devido à translação, rotação, vibração das partículas; quer sejam elas íons, atómos ou moléculas, quer sejam elas partículas de outra natureza, como elétrons ou nucleôns.
- A energia química é a parte da energia interna devido às forças que afetam a eletrosfera, com destaque para as de natureza elétrica.
- A energia nuclear e a massa: a energia nuclear é a parte da energia interna devido a forças intra-nucleares. Dada a sua ordem de grandeza, a energia potencial nuclear associada à coesão dos nucleôns figura como elemento determinante da massa do átomo, e aparece por tal inclusa na parcela de energia associada à massa de repouso do átomo, <math> E=mc^2 </math>. Se necessário dada a precisão, a massa dos elétrons também inclui-se.
- Em sistemas não convencionais onde haja radiação confinada, a energia atrelada a essa radiação, ou seja, a energia dos fótons que integrem o sistema - a exemplo em cavidades de corpos negros - também constitui parcela da energia interna desse. Tal energia geralmente é tradada como energia térmica.
Exemplos
- Um gás adiabaticamente comprimido possui maior energia interna do que possuia antes em sua forma expandida;
- Uma mola adiabaticamente comprimida tem uma energia interna maior do que se a mesma quando esticada;
- Uma dada massa de vapor de água tem energia interna maior do que a mesma massa quando em forma de água fria;
- Uma bateria carregada tem energia interna maior do que se a mesma estivesse descarregada.
Energia interna do gás ideal
A termodinâmica usa muitas vezes o conceito de gás ideal para fins de ensino dada a sua simplicidade, sendo esse modelo uma boa aproximação para os sistemas gasosos reais em uma ampla faixa entre os estados possíveis. O gás ideal é o gás das partículas que interagem apenas por colisões elásticas e enchem um volume tal que o seu caminho livre médio entre colisões é muito maior que o seu diâmetro. Os gases ideiais podem ser monoatômicos, diatômicos, triatômicos, etc., contudo a unidade pelos átomos formadas é tratada como indivisível, embora possa vibrar. Tal unidade mostra-se também eletricamente neutra e apolar, de forma que uma unidade não interage eletricamente com outras em sua vizinhança. Por tal, nos gases ideais a energia interna classica atrela-se apenas à energia cinética de translação, vibração e rotação das partículas individuais, ou seja, atrela-se apenas à energia térmica e por tal à temperatura do sistema.
Os gases reais, quando em altas temperaturas, baixas pressões e baixas densidades, portam-se como gases ideiais. Nas condições ambientes os gases da atmosfera são com muito boa aproximação tratados como gases ideais.
Gás ideal monoatômico
Partículas monoatômicas não giram ou vibram, e não são eletronicamente animadas para energias cinéticas típicas, ou seja, nem em temperaturas extremamente baixas, onde há interações de natureza elétrica entre elas, e nem em temperaturas extremamente altas, onde o gás degenera-se então em plasma. Um gás ideal monoatômico - formado por átomos isolados e não por moléculas - tal como o hélio, o neônio ou outro gás nobre, por exemplo, possui uma energia interna proveniente da soma das energias cinéticas de translação dos átomos. [3].
- <math> \mathbf U = \frac {3}{2} nRT</math>
Onde:
- <math> n</math> é o número de mols do gás;
- <math> R</math> é a constante dos gases ideais e;
- <math> T</math> a temperatura do gás.
A partir dessa equação pode-se calcular o calor específico molar de um gás.
Gás ideal poliatômico
Seguindo o princípio da equipartição da energia e o modelo atômico molecular da matéria, a energia interna de um gás ideal é dada por:
<math> \mathbf U = \frac{L}{2} nRT</math>
onde L representa o número de graus de liberdade atrelado à natureza das partículas: 3 para gases monoatômicos, 5 para diatômicos rígidos (modelado por haltere), 6 para diatômicos incluso vibração, etc..
História
James Joule estudou a relação entre calor, temperatura e trabalho. Observou que ao se aplicar trabalho mecânico em um fluido tal como a água, por exemplo, agitando-se o fluido, a sua temperatura aumenta. Ele propôs que o trabalho mecânico aplicado ao sistema é convertido em energia interna de forma a aumentar a parcela de energia térmica. Especificamente, no que ficou conhecido como equivalente mecânico do calor, ele descobriu que 4185,5 joules de energia são necessários para elevar a temperatura de um quilograma de água em um grau celsius, ou seja, que 1 quilocaloria equivale a 4185,5 joules.
Referências
- ↑ O referencial para medida da energia interna é geralmente assumido como um referencial estático em relação ao centro de massa do sistema em questão.
- ↑ Em acordo com Callen, Herbert B. - Thermodynamics and An Introduction to Thermostatics - John Wiley & Sons - ISBN 0-471-86256-8
- ↑ HALLIDAY,D. & RESNICK, R - {{#invoke:Citação/CS1|citation |CitationClass=book }}
- PILLA, Luiz Come. FISICO-QUÍMICA 1V. 1979
Ver também